Nuno Garoupa: Três apontamentos

Três apontamentos, por Nuno Garoupa – Jornal de Negócios online: Primeiro, um aumento de impostos que uma vez mais viola promessas eleitorais bem como uma suposta nova forma de encarar o problema orçamental português. Afinal a privatização de elefantes brancos como a RTP ou a cura de emagrecimento do Estado (com o encerramento de múltiplos institutos e o combate ao desperdício) são mesmo conversa bonita de quem está na oposição. No Governo é sempre mais fácil pedir aos sujeitos passivos que paguem um pouco mais.

Segundo, a pseudo-extinção dos governos civis. Faz lembrar as férias judiciais ou o fim do monopólio das farmácias anunciado na tomada de posse de Sócrates em 2005. Mal estudado, populista, acabaram em nada ou com efeitos práticos nulos. A seu tempo veremos se realmente temos uma segunda versão do mesmo “modus operandi”. Esperemos que não.

Terceiro, a reforma administrativa prometida à troika e o encerramento de metade das câmaras municipais é assunto morto!

(2) A Moody’s foi injusta com Portugal? Possivelmente. A Moody’s não gosta de Portugal? Talvez. A Moody’s é incompetente? Pode ser que sim (mas no passado errou por sobrevalorização e não subvalorização; logo se a mesma lógica se aplica aqui como gostam de apontar tantas vozes em Portugal, estamos abaixo de lixo). A Moody’s é parte de uma lógica financeira contrária ao euro e à Europa? Sem dúvida, mas só se ganhar muito dinheiro com isso (porque a Moody’s e as outras agências de “rating” existem para ganhar dinheiro, muito dinheiro, e não para entrar em loucas conspirações onde se perde dinheiro, muito dinheiro, para ajudar um dólar fraco de manhã e um dólar forte à noite). A Moody’s não tem credibilidade? Isso decidem os mercados internacionais e não as elites portuguesas aos gritos histéricos para consumo doméstico (e parece que os mercados internacionais acreditam mais na Moody’s do que nas vozes portuguesas). A Europa apoia Portugal contra a Moody’s? Só com conversa da treta porque na realidade ainda não fizeram absolutamente nada para reformar o papel e o poder das agências de “rating” (porque semelhante reforma não é tão fácil como dizem os nossos comentadores encartados). A Moody’s anda mal informada sobre Portugal? Não, bem pelo contrário. Mal informados andaram os portugueses. Então acham que basta uma conversa bonita, um Governo jovem e uma medidas pontuais para inverter vinte anos de políticas públicas absolutamente irresponsáveis? Basta sair pela Portela e aterrar em qualquer parte do mundo para perceber que Portugal simplesmente não tem credibilidade.

É absolutamente ridículo ver grandes empresários, banqueiros e gestores portugueses falar de injustiça e moralidade neste contexto. Falamos de negócios, mercados financeiros, dinheiro, lucro; desde quando são a injustiça e a moralidade parte do assunto?

O mais triste de toda esta longa saga portuguesa contra a Moody’s e as agências de “rating” é que não me lembro de todas estas vozes criticarem igualmente as políticas públicas que nos trouxeram até aqui. Estes poderes fáticos são os primeiros responsáveis do buraco em que Portugal está metido, vivendo à sombra do Estado durante vinte anos como predadores dos recursos públicos, apoiando as loucuras do optimismo que faz bem a Portugal, defendendo o sobreendividamento do Estado e das famílias como modelo económico de futuro. E agora a culpa é da Moody’s. Não, não é. A culpa é deles e só deles!

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