Nuno Garoupa: A crise do euro e os nossos especialistas

A crise do euro e os nossos especialistas, por Nuno Garoupa – Jornal de Negócios online:

1) Num interessante e polémico livro publicado em 2001 com o título “Public intellectuals, a study of decline”, Richard Posner demonstrava com recurso a um estudo quantitativo que o comentário político e económico (por aqueles a quem ele chama de intelectuais com intervenção pública) estava em declínio acentuado nos Estados Unidos desde o final dos anos 80. O argumento do autor é que na actual sociedade de consumo, o comentador político e económico é preguiçoso, não estuda, escreve generalidades e banalidades, erra sistematicamente na sua análise e prefere servir uma agenda ideológica sem sofisticação ou conteúdo intelectual. Posner pergunta-se porque semelhante mediocridade se tornou prevalecente depois dos anos 70. Por outras palavras, se um comentador falha de forma reiterada e sistemática na sua análise, o normal é que perdesse credibilidade e fosse afastado da opinião publicada por falta de procura (um produto ou serviço com propaganda enganosa reiterada ou de qualidade claramente inferior não pode sobreviver num mercado concorrencial). Mas não é o que acontece. Posner sugere algumas pistas. Uma, a cartelização dos meios de comunicação e a sua captura por agendas ideológicas para as quais a qualidade do comentário publicado é irrelevante. Outra, numa sociedade de consumo massificada, não queremos dúvidas, mas certezas; não queremos perguntas, mas respostas; não queremos um debate profundo, mas pura propaganda que confirme os
nossos dogmas e crenças.

Vem o livro de Posner à conversa quando olhamos com curiosidade para a opinião publicada em Portugal. Vejamos. O euro era maravilhoso, não tinha custos significativos, todos ganhavam, um êxito. Foram quinze anos assim. Famosos economistas portugueses defenderam que o endividamente externo era um almoço grátis. Outros andaram anos a dizer que a subida dos salários por cima da produtividade do factor trabalho estimulava a economia. O clientelismo do Estado era a forma eficiente de promover centros de decisão nacional. Já não falo do comentário quase unânime sobre o maravilhoso e excelente nado-morto Tratado de Lisboa (conhecido pelo famoso “porreiro pá”) no final de 2009 (quem dizia que aquilo era uma inutilidade era um ignorante).

Esta mesma gente escrevia há umas três semanas que a reunião de Bruxelas tinha resolvido a crise do euro (quem dizia que não era bem assim tinha que ser ou da esquerda radical ou anti-europeu). O génio europeu tinha uma vez mais salvo a moeda única da malvada conspiração norte-americana (claro que Durão Barroso era o grande timoneiro). Nem duas semanas durou. Provou-se que a análise de todos esses comentadores era simplesmente deficiente e errada pelas razões mencionadas por Posner: falta de trabalho, preguiça intelectual, banalidades e ao serviço de quem manda.

Um outro exemplo é o memorando de entendimento. Quando foi assinado pode contar-se pelos dedos de uma mão quem criticou. A esquerda radical, algum comentador por aí perdido, e pouco mais (como foi público escrevi desde o primeiro momento que para a área de justiça o dito memorando é, no mínimo, problemático). Surpreendentemente, muitos dos analistas e comentadores que andaram a defender o memorando e a criticar quem dizia o contrário, sempre em nome do interesse nacional, descobrem agora que o dito memorando é mau e desdobram-se em propostas de incumprimento. São apoiados pelas múltiplas corporações que coitadinhas são incompreendidas pelos estrangeiros, pelos banqueiros que afinal não querem pagar a factura que a troika lhes deu, pelos defensores dos centros de decisão nacional que advogam outra vez pela velha receita das desastrosas privatizações do cavaquismo e do PS, pela direita pseudo-liberal agora no Governo que descobre que Portugal precisa de 308 municípios, etc. Até admito que algumas das reticências anunciadas sejam adequadas (o programa de privatizações é evidentemente mau porque uma vez assumido o compromisso com a troika, o poder de negociação do Estado para favorecer um bom encaixe financeiro morreu), mas eu não ouvi toda esta gente abrir a boca quando era o momento adequado. E esse momento foi só há três meses. Cambalhotas rápidas num país sem memória.

(2) A crise do euro, na sua imensa complexidade, é simples de entender. Ou a Alemanha paga a conta ou acaba o euro. Acabado o euro, termina a União Europeia. Sem o euro, as moedas dos países do Sul terão uma desvalorização brutal. Evidentemente não vão poder pagar a sua dívida soberana em euros. E os países do Norte vão ter que recolocar barreiras alfandegárias e impostos aduaneiros para proteger os mercados domésticos das exportações baratíssimas do Sul. Será o fim da liberdade de movimento de bens e serviços, o fim do Mercado Comum. E Portugal irá de trambolhão em trambolhão pois andou a brincar durante trinta anos.

A conta que a Alemanha tem que pagar são uns dois biliões de euros. A forma de pagar pode ser diversa: fundo de estabilização, “eurobonds”, e outros mecanismos creativos actualmente não previstos no “utilíssimo” Tratado de Lisboa. A grande pergunta é se a Alemanha quer pagar esses dois biliões de euros. O eleitorado não, as elites sim (nomeadamente quem está exposto à dívida soberana dos países do Sul). Fosse a Alemanha uma ditadura ou uma oligarquia onde o governo faz sempre o que lhe pedem os sectores bancário e financeiro (como em Portugal), e a senhora Merkel já teria expropriado os contribuintes alemães de dois biliões de euros para acabar com o assunto. Mas a Alemanha, para desgraça das elites portuguesas, é uma democracia. E a esmagadora maioria dos alemães está mortinha por mandar o euro às malvas e regressar ao seu Deutsche Mark e ao seu espaço natural (Europa Central e de Leste). E a senhora Merkel sabe que há eleições em 2013 onde enfrenta uma oposição disposta a acabar com o euro. Curiosamente quem critica a senhora Merkel em Portugal (quase todos os nossos “public intellectuals”) parece não entender as alternativas políticas na Alemanha neste momento; sem a senhora Merkel, o fim do euro e do Mercado Comum é uma questão de meses.

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