Pedro Lains: Um livro para a manifestação

   As pessoas são melhores economistas do que os economistas, naturalmente. Aliás, a maior ambição destes é conseguir perceber e replicar a forma como as pessoas tomam as suas decisões económicas. Assim, podemos seguramente dizer que as pessoas estão revoltadas pelas boas razões. Todavia, é sempre interessante tentar acrescentar alguma informação à intuição e há até quem seja pago para isso. E, na verdade, a manifestação de amanhã tem um suporte de grande nível num influente livro sobre o funcionamento da economia internacional no século XX, intitulado Golden Fetters ou algemas de ouro. E o que diz este livro, em traços gerais, que interesse à manifestação? Mais ou menos isto.
O sistema monetário internacional funcionou relativamente bem sob o padrão-ouro, durante uma parte importante do século XIX, até à primeira Guerra Mundial, porque os ajustamentos dos desequilíbrios na economia internacional, decorrentes de crises pontuais, eram relativamente pequenos, em termos das economias nacionais envolvidas. Para além disso, os governos e os bancos centrais decidiam largamente à margem dos eleitorados, dado o deficiente voto censitário em que nem todos tinham voz.
A seguir a Versailles ou, talvez, a 1921, quando a maior parte das economias ocidentais já estavam no caminho da recuperação, muitos governos almejaram voltar ao padrão-ouro porque, afinal, era o único sistema que conheciam e tinha até um bom palmarés. E muitos tentaram. Para o fazer, foi necessário ajustar as economias nacionais a novos equilíbrios e aí começou o primeiro problema, a saber, os ajustamentos eram incomensuravelmente maiores do que alguma vez haviam sido no século XIX, por causa dos efeitos devastadores da guerra, revelando-se difíceis e prejudiciais. Mas ninguém quis desistir, desde os EUA, à França e à Grã-Bretanha. Assim, o mundo ocidental passou mais de uma década nessa tentativa vã, frustrante e de consequências dramáticas de regresso ao padrão-ouro. As piores consequências foram sentidas na Alemanha, na Áustria e nos Estados Unidos, estes a seguir ao crash (não directamente relacionado) da bolsa de Nova Iorque de 1929.
Assim foi até que alguém soube dizer basta, ouvidos os eleitorados e as populações na rua. Primeiro, em 1931, foi o governo Labour no Reino Unido que mudou de rumo, depois, em 1932, o governo Democrático de Roosevelt, nos EUA, e, em 1935, o governo francês de centro-direita que, já tarde e a más horas, não evitou a radicalização política trazida pela frente popular, no ano seguinte. Estes foram casos em que o povo soube mais do que os governantes e os economistas em que eles se apoiavam, e é disso que se trata amanhã. Golden Fetters com eles, portanto.
No meio disto tudo, em 1891 e 1892, os governos portugueses da monarquia mais ou menos parlamentar, com os republicanos às costas, fizeram algum de semelhante, mostrando alguma precocidade. Coisa de que se fala neste vídeo (entres os minutos 30 e 41), para quem tiver paciência de ouvir.

Pedro Lains: Um livro para a manifestação

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